Reflexão - Leveza do deserto.
Feliz a sós!
I
Dorme-se a mão que escreve
E tendo já escrito,
Segue as estradas;
Nem toda a tua misericórdia
Ou a tua ciência exata
A atrairão de volta
Para o que já foi,
Tudo é matéria prima para os teus caminhos.
E nem todas as tuas palavras
Levarão uma só de suas lágrimas...
Apego, paixão, compreensão
- eis os fundamentos do homem.
Escrevemos com amor
O poema da adolescência
Como a música que orquestramos
Da nossa existência.
E pensas que se um dia
Uma flor esteve no teu coração
Se a um Deus e justo te endereçastes
Ou se embebedastes um dia da taça erguida
Contraste então um dia a tua vida
Que tudo não será em vão.
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II
Na floresta não existe mais o vento
Quando o inverno se aproxima
Segue seu destino curso errante...
Todos nascem escravos
Daquele que repudia a sujeição
E se ele um dia se levanta da terra,
Indica-lhes o caminho,
Dá-me o instrumento e canta!
E o belo lamento da flauta
Perdura mais que os homens
O canto é o pássaro da mente.
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III
Os olhos foram feitos para ver coisas desusadas
Fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer
O coração foi destinado a embriagar-se de aflição e da ausência
A meta do amor é voar até o céu.
Para além das causas estão os arcanos, as maravilhas
E os olhos ficarão cegos quando virem que todas as coisas são apenas ceifas.
Peregrinar nas areias nos exige suportar beber leite de camelo, ser pilhados como escravos;
Mas derrotado, o peregrino ainda beija a pedra negra do deserto e glorioso por sentir mais uma vez o toque dos seus lábios no chão da terra.
É como degustar antes o teu beijo, oh alma, Deus pendura a sua colheita e não cunha as moedas valiosas como ouro.
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IV
Eu te amei, não nego, eu te amei um dia
Sonhei com minha tristeza em vencimento
Sem saber que esse veneno era o mais violento
Nas doces paixões dos nossos dias.
Que amor benigno eu satisfazia
Esse coração de amor isento
Agora que chorava bem atento
E que não conheceu nem tão pouco fingimentos,
Pois ninguém por amor fere pelo pranto
Somente o engano; porque agora eu sinto,
É que nos tem destinado esse estrago; tanto.
Mas nas tuas lágrimas as quimeras eu ainda sigo
E que foi amor de uma alma em desencanto;
Amor de um coração só tão infinito.
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V
Portanto diante de tudo meus grandes irmãos
Esconde-se ainda o ser no ilógico
Desfruta-se na presença de apenas ter
Como se fosse mágica brotada do chão
Sentir ser escravo do mitológico
Que deus por brincadeira construiu
Sonhos atentos ou artifícios enganosos
Para roubar do mundo a ilusão
Para não caírmos facilmente na malha da morte
Escravos dos costumes dos intelectos
Ou para viver a nossa vida sem putrefação
Jogarão nosso corpo no mundo
Fizeram-nos infidamente simbólicos
Assim seguiremos eternos no templo da sina
Com blocos em nós feitos de almas.
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VI
Ah, é tudo um canteiro de noites e dias
Os homens são artifícios e o acaso temerário
Com eles se move e toma o chá das acácias.
No céu, a mão esquerda da alvorada
Na taverna uma voz escuto na algazarra
Façamos o que é mais do que há por fazer
Antes também que nós ao pó voltaremos
Pó vai para o pó, sobre o pó se faz vinho
Sem canções e sem cantores.
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VII
Ainda assim se a tua vida
me trouxer algum dia
Dizer que me ama
e eu ser por ti amado
Os termos ais
no meu pranto magoado
Teu desprezo por mim
não será longos dias;
Confunda-me então
na soberba de tuas alegrias
Ou no ódio injusto
violento ou desgarrado
Com que atrai os meus
tristes olhos arrastados
Ao meu ingrato rigor
que o conduzia.
E já que enfim sou mísero
e assim me fizeste,
Dirás lisonjeado, Deus, ainda
na dor ou na saudade
Que me verei no fel morrendo;
e assim o quiseste.
Que te verei cruel
em verme a adorar-te.
Que também não fui ingrato,
nem calado
e assim morreste...
Feliz fui eu que mesmo
assim pude amar-te.
Textos André Agui.