Morre aos "trinta e seis anos" meu amigo e irmão Aurélio Luís, no dia 1 de janeiro de 2010. Poeta maior e grande espiritualista. (de vermelho na foto acima.) Não dá para acreditar.
Até à próxima! Meu grande Irmão.
Obrigado por tudo!
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Sonetos a Aurélio
I
(primeira parte)
E o golpe da tua profunda angústia descansou
Pela tua partida prematura e de crenças
Pela tua tarefa simples tão grandiosa e de penas
Que era amar os homens na árdua dor da esperança
Destes reavida indulta para quem ainda não pensa
No entanto tudo não era ilusão ainda completa,
Pois tudo é tão fácil dentro de nossas sentenças
Há um novo momento dentro desse teu mundo sem crestas.
Eu que nem fui escolhido a tempo em desalento e que ainda vivo
Estou pior que tu porque ainda estou por aqui e ainda sinto
Também espero o fim do tempo.
Mas mesmo naquele teu olhar de inalterável brilho
Me deste muito amor, glórias, gritos e ensinamentos!
Mesmo naquele teu corpo magro que no túmulo se manifesta.
II
Não na pura primavera onde tudo se renova
Como na infância os maus tempos pulam cordas
O veneno não é o salto e o assalto é delirante
Mas não pense achar vantagem neste incauto
Fado, que a cobiça alarga e é incessante
Se a ti nada demanda de viciante
No reino do teu pobre coração que se sujeita
Se te criticam, não é tua distorção
Porque o agravo é o mais belo presente
Da absolvição o adorno é vão e recusado
Corvo a sujar o teto do quarto em compaixão
Enquanto fores bom, o insulto mostra
Que tens o teu valor e que o tempo te provoca
Pois o Verme na rosa não é nojo.
III
Assim é a vida inconsciente no céu que passa,
Muitos que esgotam do prazer levantam a taça
Sentem também no peito essa dor indefinida.
O último adeus, sem palavras e abraços
Na tua fala emprestada de corpo enfermo
Palavras assim quase não ouvidas.
Na insanidade, porém, da tua febre ardente
Da ventura cama inerte e transitória
O peito franzino de amigo em pele tormentória
Hoje sorriram só os anjos a palpitarem contentes.
Eu sei que há muita coisa na existência,
Aflição que fere até coração de pedra,
Ainda existe a dor em nossa essência
Pois é a vida humana que o sangue enterra.
IV
E, inda perjuro, provo que estamos bem
Conhecendo melhor nossos próprios erros,
A te esperar te deposito na glória
De encobrir faltas, onde me sinto enfermo.
Então, ao me perder de ti, tens toda a história,
Receito também o arremesso do teu ofício
Ajoelhado sobre ti em amor estranho,
Irmão, o mal que te faço nos traz benefícios,
Mas quando me julgas mau e, desarrimado,
Sinto que o meu apego vês com desprezo
Lutando a favor mundo, ainda que ao teu lado.
Pois o que te auferi eu também lucro
Assim é o nosso amor ingrato de prostituto
Na selva dessa vida homens sem nomes.
V
Em silêncio passei a conversar e assim me atinges
Sem palavra apenas com olhar de cego e mudo
Descarnada, delicada, mínima e raquítica...
Mas, de repente, quase morto, ainda esbarro
No farrapo da tua vida agora (de alma) paralítica
Quebrando ainda assim a força do tato que nos amarra.
Estou num andamento inevitável sem infernos e lutas
Sem moléculas invisíveis e nervosas,
Que, em desintegração percorrem o mundo
Cantando vitoriosas, e depois, no ar se executam!
Mas em que matéria será que agora tu vive
Será na luz diante do vento e sem nebulosas
Sem cair em incógnitas criptas misteriosas
Como estrelas dentro duma gruta?!
VI
Eu sei toda sua história. - Em seu passado
Houve dramas d'amor sem ser misterioso
No segredo d'um peito angustiado -
E hoje, para guardar a sua aflição oculta,
Canto, soluço - o coração enterrado e saudoso,
Choro, gargalho e por ti escuto.
Quando penso no aguentar ainda sinto
O seu cabelo revolto ao vento em desalinho,
O seu olhar manso na mesa a tomar vinho
O arcano da sua dor que o escondia como vivo.
Irmão e poeta tão moço e de tristezas jamais desventuradas
Lutou por tanto tempo com sua dita ferida dentro do seu corpo,
Viverá agora em coma assim como eu também pelos caminhos,
No sudário de lágrimas sepultadas.







